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O primeiro dia (sexta-feira – 23/04/2010)

Texto de Bento Araújo

Como tudo era novidade para todos nós, saímos cedo do hotel e partimos em direção ao Fair Grounds. Era prudente arrumar um bom local para estacionar e também coletar todos os ingressos via Will Call (ou Box Office, como eles chamam), a famosa “barraquinha” onde se retira os ingressos comprados via internet, uma prática muito usada lá fora.

New Orleans tem um clima muito parecido com o de muitas cidades brasileiras, o clima é bem quente e bastante úmido, especialmente nessa época do ano, já que eles estavam atravessando a primavera na época do evento. Adentramos o local do Jazz Fest e imensas nuvens negras nos saudavam; um céu completamente carregado acima de nossas cabeças, que contrastava com a alegria já contagiante dos primeiros acordes que vinham de todos os lados.

A primeira banda que assistimos foi The Revivalists, que em plenas últimas horas da manhã de uma sexta-feira nublada já estavam colocando o Gentilly Stage (o segundo palco principal) quase no chão. Trata-se de uma jovem banda local (os caras estão na estrada há apenas dois anos), que mistura pop, funk, soul, jams, ska e rock. Dali seguimos para dar nossa primeira volta pelo mega Fair Grounds. Passar pela primeira vez pelo palco Fais Do Do é uma experiência única. Trata-se basicamente do palco mais roots do evento. Com visual de celeiro, o palco traz nomes tradicionais da música local, com inclinação para os estilos cajun, zydeco, bluegrass e country. Na frente do palco, o “baile” rola solto, com casais (geralmente de idade mais avançada) caprichando nos passos de dança; uma autêntica “festa no celeiro”. Tivemos o imenso prazer de ali assistir um trecho da apresentação da Jambalaya Cajun Band.

Nisso, o que era previsto realmente aconteceu, a chuva caiu ferozmente e ficou castigando o público por cerca de três horas seguidas. O jeito foi se amparar nas tendas cobertas, ou melhor, nos palcos enormes cobertos, sempre uma boa opção para se abrigar da chuva forte, do vento e também do sol.

Depois de uma passada rápida pela tenda de imprensa, era hora de conferir Dr. John e George Clinton, que se apresentariam simultaneamente em palcos diferentes. Nessa altura a lama já se tornava uma fiel companheira de todo o restante do festival. Ecos do Rock In Rio pairavam sobre nossas cabeças, e chegava a ser surreal como a chuva, o vento forte, e a lama, realmente não afetavam em nada o público do Jazz Fest. Tudo em nome da festa, da alegria e da música; a chuva acabou se tornando um presente dos deuses para refrescar o dia quente… O astral do Jazz Fest é robusto, peculiar e inabalável, e isso ficou evidente logo nas primeiras horas do Festival.

Dr. John é uma espécie de anfitrião da festa, presença obrigatória no Jazz Fest, então assisti-lo ali, em casa, é mais do que obrigação. Ele está bem envelhecido, mas continua se apresentando de forma elegante e impecável. Fica evidente que ele tem sérias dificuldades de locomoção para chegar até o seu piano. Seu olhar é vago e confuso, mas na frente de seu instrumento ele “se acha” e sai tocando como um demônio.
Tudo o que foi impressionante no show de Dr. John foi decepcionante na apresentação de George Clinton, que insiste em chamar seu embuste atual de Parliament/Funkadelic. Mr. Clinton está completamente “no osso”, é aquele tipo de artista que senta em cima da fama e vive completamente de nostalgia do que foi um dia, assim como Sly Stone. Uma pena. Sua banda (de 19 integrantes) era azeitada, com metais, vocais de apoio, uma atraente cantora de patins, um guitarrista querendo ser o Eddie Hazel e outros malas que ficavam zanzando de um lado para o outro do palco. Mesmo amparado de tanta gente competente, Clinton colocou tudo a perder, saindo do palco constantemente (seria para tomar um oxigênio?) e cantando de forma deprimente, sem voz e sem pegada alguma. A galera encarou a chuva para tentar ter um gostinho da nave mãe do funk, cantou junto e dançou com a clássica “Give Up the Funk (Tear the Roof Off the Sucker)”, porém a Mothership de Clinton não tem mais como sair do chão…

Para os principais shows da noite, nos dividimos para cobrir o maior número possível de eventos. Na tenda do jazz, o saxofonista Joe Lovano impressionou; no Acura Stage (o palco principal), Lionel Richie fez a festa da parcela mais “papai e mamãe” do Jazz Fest; no palco Congo Square, o Steel Pulse emanou os ensinamentos de Jah debaixo de chuva e cheiro de ganja por todo lado; e na tenda do blues, o veterano Elvin Bishop estraçalhou sua tradicional Gibson 335 vermelha.

Mesmo com a concorrência acirrada, o melhor show do primeiro dia foi sem dúvida o do Black Crowes, que aconteceu no Gentilly Stage. A banda dos irmãos Robinson se apresentou de forma impecável e apesar do set list óbvio (talvez devido à curta duração do show, apenas uma hora e meia) o show foi um dos melhores de todo o Jazz Fest. Incrível como o Black Crowes consegue te transportar no tempo. Em questão de segundos você se sente em 1970, e a força e espontaneidade dos caras no palco deixa a plateia hipnotizada.

A abertura foi com as palmas sincopadas de “Sting Me”, seguida por duas pérolas do primeiro álbum deles: “Jealous Again” e “Twice As Hard”, composições que estão completando 20 anos de idade, mas que poderiam ter 40, pois possuem feeling e pegada de sobra. Esse foi o primeiro show do grupo em 2010, pois eles estavam parados desde o final do ano passado. Mesmo assim o entrosamento entre o grupo foi quase que telepático, com destaque total ao guitarrista Luther Dickinson, certamente um dos melhores músicos da atualidade e que também toca no North Mississippi Allstars. Interessante também a configuração de palco do Black Crowes; no fundo estão enfileirados: as duas backing vocals, um percussionista, o batera Steve Gorman e o tecladista Adam MacDougall. Na frente, o guitarrista Luther Dickinson, o baixista Sven Pipien, Chris Robinson e Rich Robinson; cada um deles “separados” por placas de madeira, que ajudam na acústica e na captação e projeção do som do palco para os PAs. Podemos então dizer que o Black Crowes tirou um som único no palco do Jazz Fest, algo parecido com o mais orgânico e rural registrado no último disco deles, gravado ao vivo no estúdio/taverna de Levon Helm. Do excelente último trabalho do grupo, tivemos apenas “Been a Long Time (Waiting on Love)”. As jams rolaram soltas em “Thorn In My Pride” e “Soul Singing” e todo mundo se emocionou com as baladas “She Talks To Angels”, “Oh Josephine” e “Wiser Time”, provas vivas de que Chris Robinson continua como uma das melhores vozes do rock, esbanjando alma, emoção e improviso.

Tivemos ainda no set um cover de Delaney and Bonnie, “Poor Elijah/ Tribute To Johnson”, e as obrigatórias “Hard to Handle” e “Remedy”, essa última o maior sucesso deles, que fechou o set e deixou todo mundo com a sensação de que aquele era o melhor lugar do mundo para se estar. A chuva havia parado, e tínhamos mais seis dias de festival pela frente…

E abaixo, o primeiro brinde dentro do Jazz Fest:
Hugo, Bruno, eu (Bento) e Cristiano…

Fotos do primeiro dia do New Orleans Jazz Festival: http://tinyurl.com/245uufa

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