pZ Trips
As aventuras promovidas pela poeira Zine ao redor do mundo…

O quarto dia (quinta-feira – 29/04/2010)

Texto e fotos de Bento Araújo

Depois de três dias livres, onde tivemos a oportunidade de passear pela cidade, conferir alguns shows extras, garimpar pelas lojas de discos e até gravar um episódio do poeiraCast; voltamos ao Fair Grounds numa quinta-feira ensolarada. A organização do evento tinha jogado areia e serragem para amenizar a lama do fim de semana anterior e tudo estava tinindo novamente.

Logo de cara fomos atingidos por um trovão chamado Ivan Neville’s Dumpstaphunk, como o nome diz, um coletivo liderado por Ivan Neville e que conta com seu primo Ian Neville na guitarra (também dos Funky Meters) e dois baixistas monstruosos: Nick Daniels e Tony Hall, que promovem duelos insanos durante o show. Os graves nessa altura do campeonato mandavam no Fair Grounds e eu, sendo baixista e nem bobo nem nada, adorei a banda. Outra grata surpresa dessa edição do Jazz Fest.

Terminado o show, tratei de me mandar pra frente do palco, pois a minha credencial permitia um acesso ao photo pit dos fotógrafos, ali “na cara do gol”. Era hora de conferir todo o peso do Gov’t Mule, a minha banda favorita dos anos 90 pra cá.

Debaixo de um sol forte; Warren Haynes, Matt Abts, Jorgen Carlsson e Danny Louis abriram seu pequeno set daquela tarde com “Blind Man In The Dark”, faixa que também abre o magnífico álbum Dose. Confesso que sentir aquilo tudo ali no peito, na beira do palco, e com os braços apoiados nos muitos dos “woofers” que mandavam os graves para o público foi uma experiência única. Isso sim é som “no peito”. Quem não estava me agradecendo eram os meus pobres tímpanos…

Logo a mula emendou com três sons de By a Thread, o disco mais recente deles: a funkeada e genial “Steppin’ Lightly”, com Louis na guitarra, “Broke Down on The Brazos” e “Railroad Boy”.

O clima pesadíssimo cedeu espaço para duas belíssimas baladas: “Beautifully Broken” e “I’ll Be The One”. No recheio dessa última, Warren e seu tradicional bom gosto marcaram presença mais uma vez, com a inclusão de um trecho de “Blue Sky” do Allman Brothers Band e de pura pegada soul com “I’ll Take You There”, clássico das Staple Singers. Interessante ver a quantidade de seguidores do grupo simplesmente pirando no Jazz Fest e em plena tarde de quinta-feira! Que loucura, todo mundo aqui no Brasil pegando no batente e a gente em New Orleans tomando todas e assistindo ao Gov’t Mule às três da tarde de uma quinta-feira. Tá vendo, se eu fosse você eu não perderia a próxima excursão da pZ ao Jazz Fest por nada deste mundo!

O tempo do Gov’t Mule era curto, então eles encerraram com dois de seus maiores clássicos: “Thorazine Shuffle” e “Soulshine”. Foi curto? Sim. Ficou com gosto de “quero mais”? Claro. Mas foi do cacete, principalmente porque a gente sabia que isso havia sido apenas um aperitivo, já que tínhamos inclusive garantido os ingressos para o show extra deles, que aconteceria no dia seguinte, num luxuoso teatro da cidade (leia a resenha mais adiante).

Para fechar a quinta-feira, cinco grandes apresentações acontecendo simultaneamente. Três delas foram decepções completas, como a banda de banjos de Steve Martin (sim o comediante). Um saco sem tamanho… O Blues Traveler também não se achou na Blues Tent. Repertório mal escolhido, açucarado e pop demais pra gente que tinha acabado de assistir um arregaço como o Gov’t Mule. Outro ponto baixo do dia foi a Average White Band, que hoje em dia não passa de uma banda cover do que eles foram no passado. Músicos extremamente competentes no palco, groove em dia, porém aquele clima Las Vegas no ar, aquela pegada digna de uma banda de formatura… Deprimente.

Já Elvis Costello e sua banda, os Sugarcanes, mandaram muito bem no show de encerramento do Gentilly Stage. Clássicos como “(What’s So Funny ‘Bout) Peace, Love, and Understanding” (de Nick Lowe), “Alysson” e “Oliver’s Army” foram executadas com emoção, assim como a cover para “Happy” dos Stones. Claro que a canja generosa de Allen Toussaint, parceiro e brother de Costello, era inevitável. Um belo show.

Quem realmente surpreendeu, pelo menos para nós brasileiros, foi o Widespread Panic, grupo que fez o show mais longo do Festival, com duas horas e meia de duração. Verdadeiro ícone da cena “jam band” norte-americana, o WP tem uma gigantesca legião de fãs pela América. É aquele pessoal que curte tomar um ácido e ficar ouvindo as longas jams que rolam no palco. A semelhança com o Grateful Dead é assustadora, seja nos longos improvisos, nos vocais a la Jerry Garcia de John Bell, ou nos maravilhosos sons de guitarra do grande Jimmy Herring, uma lenda que já passou por grupos como Jazz Is Dead, Frogwings, Phil Lesh and Friends, Project Z, The Dead e muitos outros. O baixista Dave Schools também tem um estilo peculiar, muito agradável, e toda vez que eu vejo esse cara tocando eu rezo para ele entrar no Gov’t Mule… Resumindo, foi um arraso; principalmente pelo fato dessa mega banda ser totalmente desconhecida aqui na América do Sul.

Eu já curtia o grupo e tinha alguns CDs deles, depois do show então virei fã dos caras. Outro grupo que tem tudo a ver com o clima “hippie” e relaxado do Jazz Fest. Novamente parecia que estávamos em 1969, 1970…
Viagem pura.



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