O segundo dia (sábado – 24/04/2010)
Texto de Bento Araújo
“Receio”. Essa é a palavra que marcou os nossos sentimentos durante a manhã chuvosa de sábado. Assim que acordamos, ligamos a TV na CNN e uma ameaça de tornado para a região da Louisiana nos enchia de preocupação. Para nós, meros turistas, o fantasma do Katrina ainda causa um certo desconforto e a chuva e os ventos fortes do dia anterior ainda estavam em nossas mentes. Era prudente aguardar um pouco, então acabamos saindo do hotel um pouco mais tarde esse dia. Como a chuva continuava fraca, nos armamos de nossas capas de chuva e partimos para o Fair Grounds. Caso o lance ficasse impraticável, nosso plano seria se abrigar numa das tendas. Amaciados pelo “toró” e lama do dia anterior, tudo era lucro já naquela altura de Jazz Fest. As previsões eram de uma chuva ainda maior e mais intensa do que a que havia despencado na sexta-feira. Para a sorte geral da nação freak, a previsão falhou, e feio. O sol finalmente saiu e o tornado se deslocou mais para o norte e foi parar no Tennessee.
Chegamos a tempo de assistir duas bandas bacanas; a primeira delas foi The Wiseguys, somente com coroas e tocando covers de Rare Earth, Chicago e Sly and The Family Stone. A segunda boa banda da manhã/tarde de sábado foi o Bonerama, conhecidos localmente por fazer um “trombone-rock”. Abriram sua apresentação com uma versão dilacerante de “That’s It for the Other One” do Grateful Dead, contida no álbum Anthem of the Sun, de 1968. Outro ponto alto do show deles foi a homenagem ao recém falecido Alex Chilton, quando executaram um medley com “The Letter” dos Box Tops, com “O My Soul”, do Big Star. Tudo com metais e grooves aos montes.
Falando em grooves, uma das maiores surpresas de todo o Jazz Fest foi a banda que conferimos na sequência, o Papa Grows Funk, grupo de jams local comandado pelo literalmente pesado John “Papa” Gros, e que conta também com a sustentação de uma monstruosa cozinha e o virtuosismo do guitarrista japonês June Yamagishi. A banda fez fama com suas tradicionais jams de “segunda a noite” num bar da cidade, e logo começou a gravar e a excursionar. São imensamente respeitados em New Orleans e merecem cada gota desse respeito.
Falando em respeito e em New Orleans, fomos diretamente em direção ao palco principal para conferir o Funky Meters, que se trata na verdade do lendário The Meters, banda seminal do funk dos anos 60 e 70. Eles estavam na primeira edição do Jazz Fest, em 1970, e são mais do que meros pratas da casa, são uma entidade local, um dos pilares da música de New Orleans. Essa celebração ao groove dos Meters marca presença anualmente no Jazz Fest, e esse alto astral é comandado pelo Hammond de Art Neville e pelas linhas desconcertantes de baixo do fenomenal George Porter Jr. Dançar na lama ao som de “People Say”, “Hey Pocky A-Way”, “Cissy Strut”, “Look-Ka Py Py”, “Chicken Strut” e “Fire on the Bayou”, entre outras, é algo que tem que se fazer pelo menos uma vez na vida. Durante o show deles o sol saiu pela primeira vez. George Porter Jr. apontou para o céu e gritou: “Olha o sol galera!”. Nesse instante, o imenso Fair Grounds era uma pista de dança gigantesca, com todo mundo louvando o sol e a música quase sensual dos Funky Meters. Garotas hippies, com o rosto pintado e tudo mais dançavam juntas, era lama pra todo lado… Na nossa frente, um adolescente oferecia um cigarro de maconha para um casal já na terceira idade, que recusava numa boa, sorrindo, tudo na melhor das vibrações. Na metade do segundo dia, todos nós já estávamos com o sabor único do Jazz Fest na boca, ou melhor, com aquela vibração alucinante cravada nos nossos espíritos para sempre. É por isso que falam sempre que basta você comparecer ao Jazz Fest uma primeira vez para querer voltar todos os anos seguintes.
Com o sol brilhando maravilhosamente, uma verdadeira massa de rostos deslumbrados se aconchegou (com certa dificuldade, é verdade, pois eram milhares e milhares) para curtir a primeira apresentação da dupla Simon & Garfunkel desde 2004. Paul Simon já é um veterano de Jazz Fest, porém Art Garfunkel debutou nesse sábado e a sua reação, assim que entrou no palco e viu a multidão brilhando no sol, entregou o jogo… O cara estava emocionado, antes mesmo de falar qualquer coisa ao microfone. As harmonias vocais da dupla, somadas as letras que embalaram a juventude dos turbulentos e violentos sixties, deram um molho diferente ao Festival. Famílias inteiras cantavam juntas, e em algumas delas, quatro gerações eram vistas cantando. Mesmo que você não seja um grande fã do grupo, chega a ser emocionante presenciar o que “America”, “Bridge Over Troubled Water”, “Mrs. Robinson”, “The Sounds of Silence” e muitas outras, representam para o público norte-americano. A dupla contou com o apoio de uma banda de músicos de primeira, e a voz de Garfunkel está longe de estar em forma. Ele inclusive pediu para a plateia dar uma força nas notas mais altas.
