pZ Trips
As aventuras promovidas pela poeira Zine ao redor do mundo…

O sexto dia (sábado – 01/05/2010)

Texto e fotos de Bento Araújo

Esse foi o dia mais cheio de todo o Jazz Fest. Logo nas primeiras horas do Festival era quase impraticável dar uma mera volta geral pelo Fair Grounds. Claro, isso aconteceu pelo fato do Pearl Jam ser a mais famosa atração daquele dia, então milhares de jovens de todos os EUA partiram para New Orleans para conferir essa apresentação da banda de Eddie Veder.

Chegamos cedo, pois eu estava louco para assistir a Dirty Dozen Brass Band, um grupo de metais que faz um som empolgante e animado. Esses já veteranos heróis locais abriram caminho para outro figura local, ou “quase” local: Anders Osborne. Nascido na Suécia, Anders está há 25 anos vivendo e tocando em New Orleans, então sua conexão com a música da Louisiana é absoluta. Guitarrista de alto calibre, Osborne está em todas: você pode vê-lo tocando com diversas bandas, seja no palco principal do Jazz Fest, em shows intimistas nos pubs da cidade, no espremido palco de uma loja de discos, ou até mesmo numa esquina do French Quarter. Osbourne é um talento nato, sua entrega no palco é cativante, e ele sai solando sempre como um louco, isso sem contar seu visual estilo “mendigo”, com barba e cabelo enormes. Para se ter uma ideia, o som da banda do cara é uma espécie de Band Of Gypsys do século 21.

Depois dele veio o Galactic, no Acura Stage, o palco principal. Comandados pelo renomado baterista local Stanton Moore, a banda caprichou no funk e nos duelos de trompete e saxofone. Tudo com uma pegada absurda e muito groove, bem a cara de New Orleans. Ninguém na pista parou por um minuto e o set dos caras foi bem intenso e direto. Mais uma grata surpresa musical pra gente que vinha do Brasil e nunca tinha ouvido falar desse combo.

Depois deles o Pearl Jam tomaria de assalto o palco principal, então foi uma árdua missão simplesmente deixar o nosso lugar na frente do palco. Com o show do Galactic encerrado, rumamos com certa dificuldade até o Gentilly Stage, para assistir a Sonny Landreth, guitarrista de New Orleans que é considerado o melhor slide player do mundo. A técnica apurada de Landreth realmente impressionou e deixou todo mundo grudado no telão de alta definição, que captava a magia que saia de seus dedos.

Depois de Landreth, um extraterreno subiu ao palco. Ninguém sabe de qual planeta, qual sistema solar, ou mesmo de qual dimensão ele pertence… Só deu pra sacar que esse alienígena vestia botas de pugilista e braceletes prateados presos em seu antebraço, e apareceu empunhando uma Stratocaster branca. Claro que estou falando de Jeff Beck, o maior guitarrista vivo e ponto final.

Tive o privilégio de assistir Beck no ano passado, num show impecável realizado no Royal Albert Hall de Londres, que ainda contou com uma canja surpresa de David Gilmour. Fiquei extremamente tenso antes da apresentação de Beck no Jazz Fest: E se o show dele não fosse tão bom quanto o do ano passado? Sempre o show que você assiste por último tende a ser o que mais fica enterrado em sua memória, então o meu medo seria perder aquela lembrança agradabilíssima do show de Londres… Besteira total de minha parte; o show do guitarrista britânico no Jazz Fest não foi somente tão bom quanto o de Londres como foi ainda MELHOR! Inacreditável! O que também pesou para isso acontecer foi a banda de Beck, que está reformulada e o fato dele agora estar promovendo um excelente novo disco de estúdio após sete anos, Emmotion & Commotion. Algumas faixas desse álbum foram os pontos altos do set do guitarrista.

De sua banda do ano passado, Beck manteve apenas o tecladista Jason Rebello. No baixo, ele trocou a bela Tal Wilkenfeld pela mal encarada Rhonda Smith. Claro que uma opinião completamente machista logo diz: “Que besteira que Beck fez…”, mas nada disso; Rhonda é uma excepcional baixista, que colocou Wilkenfeld “no bolso” logo nos primeiros instantes do show desse sábado. Sua pegada maliciosa, seus slaps infernais e o jeito que ela explora seu contra-baixo hipnotiza a todos. Para a bateria, Beck trocou o monstro Vinnie Colaiuta pelo godzilla Narada Michael Walden, que gravou ao lado do guitarrista a seminal obra Wired. Walden simplesmente arregaçou, unindo técnica e agressividade como somente os mestres sabem. Foi sem dúvida o baterista mais pesado do Jazz Fest (e olha que a concorrência era braba), literalmente fazendo o chão tremer com seus dois bumbos.

Antes de Beck subir ao palco para fechar o segundo sábado do Festival, Quint Davis, o produtor do evento há muitos anos, pegou o microfone e não conteve a emoção. O sujeito simplesmente comparou o guitarrista com os grandes gênios da humanidade. Quando Beck abre o volume de sua Fender e a primeira nota emitida pelos seus dedos ecoa no Fair Grounds você já está completamente rendido e concorda plenamente com Davis. O cara no mínimo é um gênio.

É muito difícil ser um “crítico” nesses momentos. As emoções falam mais alto e só te resta fechar os olhos e deixar a guitarra de Beck te levar para os lugares mais inimagináveis.

Foi impressionante conferir ele tocar “Corpus Christi Carol” logo no início do show, e perceber que algo diferente e até então inédito se instaurava no Fair Grounds: todo mundo estava calado, imersamente conectado com os divinos sons da guitarra de Beck. A confusão da garotada entorpecida e alegre provavelmente estava do outro lado da imensa área do Jazz Fest, assistindo ao Pearl Jam. Quem ficou no Gentilly Stage, estava interessado em apenas uma coisa: música; e isso ficou mais que evidente durante todo o set do guitarrista.

Em “How High The Moon”, a banda tocou por cima de um vocal pré gravado de Imelda May e Beck apareceu com sua antiga Les Paul preta, que eu não via em suas mãos por muitos anos. O guitarrista pagou tributo a Sly Stone com uma desconcertante versão de “I Want To Take You Higher”; a Billy Cobham com “Stratus”; e aos Beatles com sua já tradicional versão de “A Day In The Life”. A complexidade e violência de “Led Boots” ganhou ainda mais força ao vivo, mas foi com “People Get Ready” e “Over the Rainbow” que o guitarrista acabou comigo. Pode soar piegas, mas é pura verdade… Foi impossível de conter as lágrimas…

O último tema apresentado foi “Nessun Dorma”, uma ária do último ato da ópera Turandot, de Giacomo Puccini. Foi o golpe de misericórdia, com Beck terminando de joelhos, para o delírio absoluto do Fair Grounds. Saí da frente do palco completamente desnorteado e atordoado, andando em zigue-zague pela grama… O que havia sido aquilo? Tive um exemplo de divindade em forma de música… Algo espiritual, transcendental e todos os outros “tals” que você quiser. Confesso que nunca havia sentido isso antes… Beck acabou comigo, literalmente, blow by blow.

Trechos do show do mestre Jeff Beck no Jazz Fest, dia 02/05/2010

Nenhuma resposta para “O sexto dia (sábado – 01/05/2010)”

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

You are commenting using your Twitter account. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

You are commenting using your Facebook account. Sair / Alterar )

Connecting to %s

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.