O terceiro dia (domingo – 25/04/2010)
Texto de Bento Araújo
Querendo ou não, o terceiro dia era o mais esperado por todo o nosso grupo, simplesmente pelo fato de ser o dia em que finalmente iríamos concretizar um sonho de nossas vidas: assistir ao Allman Brothers Band ao vivo, e no Sul dos Estados Unidos, ou seja, no território dos caras!
No café da manhã no hotel a animação já era palpável e para melhorar ainda mais, o domingo amanheceu sem nenhuma nuvem no céu. Foi sol forte o dia todo.
Para começar o domingo com o pé direito, fomos direto à missa, que começou às 11 da manhã na tenda gospel. Ali vimos o grupo Gospel Stars e o reverendo Jai Reed, que literalmente enaltecia as palavras do Senhor, dizendo que poderia sair voando a qualquer momento. A tenda gospel do Jazz Fest se assemelha a uma imensa igreja, parecia que estávamos no Harlem, literalmente “worshiping the Lord”. Foi uma injeção de vida e soul, logo pela manhã. Saímos de alma lavada e prontos para nos bronzear ao som de muita boa música. Demos uma conferida também na tenda do blues, onde estava tocando o burocrático Guitar Slim Jr; uma enganação, que só valeu a pena pelo cover mediano de “Pride And Joy” do imortal Stevie Ray Vaughan.
Era hora do pit stop para o almoço, e nos encantamos com os populares Po’Boys, sanduíches suculentos, com salada, picles e diversas opções de recheio, sempre fritos: caranguejo, lagostim, camarão, ostra, pato e até carne de jacaré, ou seja, o tradicional “Gator Po’Boy”. Tudo apimentado pacas, uma delícia!
O plano depois do almoço rápido era conseguir o melhor lugar possível para se assistir ao Allman Brothers Band, que subiria no palco às 17 horas em ponto. Antes deles, fomos agraciados com um show maravilhoso de Levon Helm e sua Midnight Rambles Band, um coletivo country de primeira, regido por ninguém menos que o lendário ex-baterista da The Band. Com músicos fabulosos e simpatia e carisma de sobra, Levon fez um dos melhores shows do Jazz Fest, recheando inclusive o repertório com vários temas de sua antiga banda, como “The Shape I’m In” e “Chest Fever”.
A presença de Howard Johnson no sax barítono e tuba (sim, ele estava na brass section da The Band em Rock Of Ages) e mais canjas especiais de Dr. John, Allen Toussaint (que também participou de Rock Of Ages, arranjando os metais), Ivan Neville e Stanton Moore, temperaram muito bem o show, que se encerrou com “The Weight”, um dos hinos da The Band e dos anos 60. Todos cantamos juntos, arrepiados pela vibração única da canção. A canja de Dr. John também foi histórica, com ele mandando ver numa versão arrasadora de “Such A Night”. Assistir Dr. John e Helm no palco nesse instante teve um gostinho de The Last Waltz, já que ambos estavam ali recriando um pouco da história da The Band e do rock diante de nossos olhos e ouvidos.
Levon está bem velhinho (ele está completando 70 quando você estiver lendo este texto), mas continua um figuraça inveterado. Sua voz está combalida, é verdade, já que superou um terrível câncer de garganta, mas mesmo assim faz sua parte, inclusive colaborando na harmonia de “Tennessee Jed”, clássico do Grateful Dead. Em algumas ocasiões, Helm deixava sua bateria e vinha para a frente do palco tocar mandolim e violão, e também dividir os vocais com as duas belas vocalistas de sua banda, sendo uma delas inclusive sua filha.
Num momento de pura descontração, Levon ficou dançando de forma engraçada e despojada na frente do palco, enquanto sua big band regia tudo com maestria para o delírio geral do Fair Grounds. Incrível como o baterista conseguiu transportar para o Acura Stage do Jazz Fest o clima único das “sessões de fim de semana” que o próprio promove com os Midnight Rambles em seu estúdio/taverna em Woodstock. Allen Toussaint terminou sua canja exaltado; levantou-se do piano, apontou para o baterista/lenda e gritou no microfone: “American treasure, Levon Helm”.
Levon saiu ovacionado e em questão de 20 minutos o ABB entraria no palco…
Ficamos estacionados há uns dois passos da grade de proteção, na cara do palco. O coração começou a bater mais forte quando um praticável veio sendo arrastado pelos roadies, trazendo a percussão de Marc Quinones (no meio), e os kits de Jaimoe e Butch Trucks nas laterais. O kit de Trucks trazia o desenho de um cogumelo no bumbo, com a inscrição “Butch”. Reconheci então o roadie de Warren Haynes, um gordinho que sempre aparece nos vídeos do Gov’t Mule, e ele estava extremamente atarefado, montando o set do guitarrista. Tapetes eram espalhados pelo chão do palco e o Hammond, caixa Leslie e Fender Rhodes de Gregg Allman também foram posicionados bem na nossa frente. Devo confessar que eu havia escolhido aquele lado esquerdo do palco de propósito, pois tinha certeza de que Gregg Allman ali ficaria.
A galera esperava ansiosa. Alguns coroas, casais, mas também muita molecada. Atrás de mim, um garoto ruivinho aparentando uns 10 anos de idade, vestia uma camiseta escrita “Gregg Allman”. Um outro coroa meio bêbado chegou para o garoto e disse algo do tipo: “Se prepare garoto, pois você vai assistir ao Gregg e sua banda em ação!”. O moleque, com cara de saco cheio extremo, chega pro tiozão e resmunga: “Eu já assisti o Allman Brothers Band por três vezes!”, com seu pai fazendo sinal de aprovação do lado. O bebum ficou calado e eu espantado, pois em meus 33 anos de idade, eu nunca tinha visto o grupo ao vivo… e o garoto com apenas 10 anos já tinha visto três shows deles! Aliás esse tipo de “humilhação” é muito comum nos EUA.
Entre uma cerveja e outra, você naturalmente começa a conversar sobre shows e festivais mais antigos com as pessoas, e é muito comum, por exemplo, uma senhora com visual totalmente “careta”, falar algo do tipo: “Eu assisti o Jimi Hendrix tocar na minha Universidade em 1968”, ou “eu segui o Grateful Dead pelo país em 1971”, ou “eu vi o Grand Funk ao vivo na turnê do Survival”, ou “eu estava naquele show em que o Jim Morrison foi preso”, ou “eu estive em Watkins Glenn, Woodstock, Altamont e no Atlanta Pop Festival”…
Humilhações à parte, era a nossa vez de conferir o ABB ao vivo e os gringos parece que sentiam essa nossa emoção e compartilhavam de tudo com a mesma intensidade. Outra cena marcante: um garoto de uns 12 anos de idade fumando maconha atrás da gente, e com o pai! Surreal, aqui não é muito comum ver esse tipo de coisa… Assusta um pouco.
Às 17 horas em ponto, a banda sobe ao palco e timidamente cada integrante toma o seu posto. Derek Trucks entra de muletas, ajudado pelo seu roadie, o que causou um certo espanto na plateia. Derek tocou sentado durante todo o set, mas como ele é sempre bem tímido, paradão e concentrado, isso foi quase que imperceptível em sua performance.
A primeira música do show foi “Don’t Keep Me Wonderin’”, que já fez todo mundo dançar e entrar no clima. O volume era ensurdecedor e a massa sonora que vinha do palco era cristalina e encorpada. Impressionante a qualidade do som durante todo o festival, chega a dar raiva! Tudo redondinho, encorpado, sem nada “sobrando”. O som do ABB ao vivo é único, é possível perceber a camada de percussão vinda do fundo do palco, passando pelas camas de teclados de Gregg e chegando à frente com as guitarras agressivas de Warren e Derek bem “na sua cara”. Do lado direito, um monstro que atende pelo nome de Oteil Burbridge fecha esse arquivo zipado de som sulista com os graves mais envolventes e pesados de todo o Festival. Nos últimos minutos dessa primeira faixa, Oteil tocou virado para seus amplificadores e agitou tanto no groove que ele própria criava, que seus óculos escuros voaram longe. Era o delírio máximo e havia acabado somente a primeira música do show!
Uma viagem a 1969 foi promovida pela banda na segunda faixa da apresentação, “Trouble No More”, contida no disco homônimo de estreia do grupo. Logo depois uma surpresa naquela altura do set, o clássica “Midnight Rider”, geralmente executada “mais adiante” nos sets da banda. Todo mundo cantava junto, emocionante. Warren assumiu a liderança (que geralmente fica com Gregg) para cantar “Woman Across The River”, que ficou famoso na versão de Freddie King. Foi a única faixa “mais recente gravada pela banda” a ser tocada nesse show, já que ela aparece no último disco de estúdio deles, o excelente Hittin’ The Note, lançado em 2003.
“Ain’t Wastin’ Time No More” veio depois, com Gregg migrando para o Fender Rhodes, tocando virado para o palco e de lado para a plateia. Gregg é o pai do Southern Rock, debaixo de seus óculos escuros e suas tatuagens está a pura história do rock norte-americano, com seus vícios, tragédias e herança da música negra. Nessa faixa que abre o álbum Eat A Peach, é impossível não olhar para o céu azul (“Blue Sky”) e lembrar de Duane, o homenageado nesse tema em questão. Essa foi a primeira composição de Gregg após a morte do irmão, e ela fala sobre sua dificuldade em ter que lidar com isso pelo resto de sua vida. Ouvir “Ain’t Wastin’ Time No More” ao vivo e pensar em Duane Allman é uma experiência espiritual, transcende qualquer barreira material. Gregg também faz isso em silenciosa comunhão com os fãs mais ardorosos que ali estão e esse feeling paira no ar do Jazz Fest.
Depois da homenagem a Duane, era hora de Gregg e Warren homenagearem Bob Dylan, com uma versão matadora e dolorosa para sua “Blind Willie McTell”, cuja letra tem tudo a ver com New Orleans, falando de blues, escravidão, plantações de algodão e da vida do próprio Blind Willie McTell, bluesman cujo maior sucesso foi “Statesboro Blues”, não por mera coincidência a próxima canção executada pelo ABB neste show. Nesse instante, tínhamos a nítida impressão de que estávamos vivenciando mais do que música e diversão. Era história pura da América: blues, a harmonia sulista, Dylan, Blind Willie McTell e ABB, um turbilhão que passava pelas nossas cabeças.
Gregg e Warren continuam dividindo os vocais e mantendo a emoção do show em alta, apresentando uma versão maravilhosa de “Soulshine”, talvez a mais famosa e bela composição de Warren Haynes.
Dando continuidade, mais duas faixas do primeiro disco do grupo: “Black Hearted Woman” e “Dreams”. Nessa última, a mais psicodélica da carreira da banda, foi incrível olhar para o lado esquerdo do palco e ver a lua (cheia) surgindo, enquanto que do lado direito o sol ainda brilhava e se preparava para se pôr. Você acredita em perfeição? E em alinhamento dos astros? Só quem estava ali naquele instante para sacar do que eu estou falando… Todo mundo em transe com as notas bem escolhidas de “Dreams”, e com o sol abençoando todos os presentes que se preparavam para mais uma homenagem, dessa vez ao irlandês Van Morrison, já que Warren cantou uma versão de “And It Stoned Me”, faixa que abre o exuberante Moondance. Van se apresentaria no fim de semana seguinte do Jazz Fest, então a homenagem foi mais do que apropriada. “No One To Run With”, do disco Where It All Begins foi a próxima canção do dia, abrindo caminho para a sempre monstruosa “Whipping Post”, o marco zero do rock sulista e a cartilha de qualquer banda que tem pretensão a ser uma jam band. Durante “Whipping Post” é evidente a sensação de que todos no ABB jogam pelo time.
Ninguém quer aparecer mais do que o outro, cada um tem o seu papel. A explosão é coletiva e a massa vai ao delírio com os longos solos de Derek e Warren. Desbunde completo. A música termina. Os caras deixam o palco e está todo mundo em êxtase completo. Basta um giro de 360 graus ao seu redor e todo mundo tem um sorriso estampado no rosto e uma tremenda excitação em seus gestos.
Os caras voltam para encore, mas apenas Gregg (no violão), Oteil e Warren. É hora de “Melissa”, a mais famosa balada da banda. O público feminino canta junto e Gregg pousa de galã.
A banda toda volta e ataca de “One Way Out”, transformando o Fair Grounds numa imensa pista de dança. Sim, pode parecer engraçado, mas os gringos adoram essa música (talvez por ela ter aparecido em tantas trilhas sonoras por lá e ter sido um imenso hit nas rádios) e costumam dançar com ela. Foi uma verdadeira festa e assim o ABB encerrou sua apresentação na 41ª edição do Jazz Fest e também o primeiro fim de semana do evento.
Vai, me belisca, que eu ainda não estou acreditando que vi tudo isso ao vivo!
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